Método, sigilo e responsabilidade

Revisão documental, do TCC à licitação.

Revisão e conferência de documentos em quatro áreas:

Escopo, prazo e valor por escrito antes de começar. Sigilo e autoria preservados.

Percentual de similaridade: o que conta como plágio

Percentual de similaridade: como o índice é formado, quais ocorrências são esperadas, quais exigem correção e por que não há valor seguro universal.

Trabalhos acadêmicos

Percentual de similaridade: o que conta como plágio e o que não conta

O relatório chega com um número e nenhuma explicação. Entenda como esse índice é formado, quais ocorrências são esperadas, quais realmente exigem correção e por que não existe percentual seguro universal.

Atualizado em agosto de 2026 14 minutos de leitura Similaridade e citações
Relatório de similaridade com trechos marcados e gráfico circular de percentual

Você recebe o relatório com 24% e o coração dispara. O documento tem dezenas de páginas de trechos coloridos, uma tabela de fontes coincidentes e nenhuma frase explicando o que aquilo significa. A pergunta que vem em seguida é sempre a mesma: 24% é muito?

A resposta honesta é que o número, isolado, não diz quase nada. Dois trabalhos com o mesmo percentual podem estar em situações completamente opostas: um perfeitamente regular, outro com problema sério. O que importa é a composição do índice, e é isso que o relatório não explica.

O que essas ferramentas realmente fazem

Sistemas de detecção de similaridade comparam o texto submetido com bases de dados: artigos publicados, repositórios de teses, páginas da internet e trabalhos submetidos anteriormente à mesma plataforma. Quando encontram sequências de palavras iguais ou muito próximas, marcam a ocorrência.

É importante entender o que essa operação não faz. A ferramenta identifica coincidência textual, não plágio. Ela não sabe se um trecho está devidamente atribuído, não distingue citação legítima de cópia, não reconhece que referências bibliográficas coincidem por definição, e não avalia se as ideias são originais.

Plágio é uma avaliação de conduta. Similaridade é uma medida mecânica. Confundir as duas é o erro que gera pânico desnecessário e, em outros casos, falsa tranquilidade.

Como a coincidência é detectada

A maioria dos sistemas trabalha com janelas de palavras consecutivas. A ferramenta percorre o texto em blocos (algo entre seis e dez palavras seguidas, conforme a plataforma) e procura essa mesma sequência nas bases. Quando encontra, marca o trecho e registra a fonte.

Isso explica dois comportamentos que costumam confundir. O primeiro é a coincidência aparentemente aleatória: uma expressão comum como "de acordo com os dados apresentados na tabela" pode aparecer marcada, porque milhares de textos a contêm. O segundo é o oposto: um parágrafo integralmente copiado, mas com palavras trocadas a cada cinco ou seis termos, pode não ser detectado: a janela nunca fecha inteira.

A consequência prática importa: a ferramenta erra nas duas direções. Marca o que é inofensivo e deixa passar o que é grave. Por isso ela é ponto de partida da conferência, nunca conclusão.

O que está e o que não está nas bases

A comparação só alcança o que a plataforma indexa. Artigos de periódicos, repositórios institucionais, páginas públicas da internet e trabalhos submetidos anteriormente ao mesmo sistema geralmente estão cobertos. Livros impressos sem versão digital, materiais de acesso restrito, apostilas internas e trabalhos de instituições que não compartilham acervo frequentemente não estão.

Isso significa que índice baixo não é atestado de originalidade. Um trabalho pode apresentar 3% e conter cópia integral de um livro que a base não indexa, e a banca, que conhece a literatura da área, perceber na leitura o que a máquina não viu.

Um detalhe que muda a leitura. A maioria das plataformas permite configurar filtros: excluir referências, excluir citações, ignorar coincidências abaixo de determinado número de palavras. Dois relatórios do mesmo trabalho podem apresentar percentuais bem diferentes só por causa dessas configurações. Antes de comparar o seu índice com o de um colega, vale verificar se a configuração era a mesma.

O que entra no percentual sem ser irregularidade

Boa parte do índice de um trabalho acadêmico vem de trechos que não poderiam ser diferentes. Estes são os principais:

Referências bibliográficas. Uma referência em ABNT tem forma fixa. Se dez autores citam a mesma obra, as dez referências são idênticas, e coincidem 100%.
Não é plágio
Citações diretas atribuídas. Citação existe para reproduzir palavras de outro autor. Com aspas ou recuo, autoria e página indicadas, a coincidência é o comportamento correto.
Não é plágio
Dispositivos legais e normas. O texto de um artigo de lei, de uma resolução ou de uma norma técnica não admite paráfrase quando o objetivo é citar o que está escrito.
Não é plágio
Sumário, ficha catalográfica e folha de aprovação. Elementos com estrutura padronizada pela instituição, iguais em todos os trabalhos do mesmo programa.
Não é plágio
Terminologia técnica consagrada. Nomes de métodos, instrumentos, escalas e procedimentos que só têm uma forma correta de serem escritos.
Não é plágio
Seu próprio trabalho anterior. Artigo publicado por você durante o mestrado aparece como coincidência na dissertação. Precisa ser autocitado, mas não é plágio.
Requer citação

Em trabalhos com bibliografia extensa e muitas citações diretas, esses itens sozinhos podem responder pela maior parte do percentual. É comum uma dissertação bem construída apresentar índice mais alto que um texto raso, porque ela cita mais.

O que exige correção de verdade

Aqui está o que realmente importa no relatório, e o que nenhum número resume:

Trecho copiado sem atribuição. Parágrafo de outro autor no corpo do texto, sem aspas, sem recuo e sem indicação de fonte, como se fosse redação própria.
Precisa corrigir
Paráfrase sem crédito. Ideia de terceiro reescrita com outras palavras, sem indicar de quem veio. Muda o texto, não muda a apropriação.
Precisa corrigir
Citação mal formatada. A fonte está indicada, mas o trecho longo ficou no corpo do parágrafo entre aspas, sem o recuo que a norma exige: o que confunde onde termina a citação e onde começa a sua análise.
Precisa corrigir
Citação de citação sem indicação. O autor citado não foi lido no original, e o intermediário não aparece. Falta o apud.
Precisa corrigir
Referência citada e ausente da lista. Ou o contrário: obra na lista que nunca aparece no texto. É o problema mais comum e o mais fácil de resolver.
Precisa corrigir

Quatro relatórios comparados

A forma mais direta de mostrar por que o número isolado não serve é comparar situações. Os quatro casos abaixo são construções ilustrativas, feitas para esta página: não correspondem a trabalhos reais nem a material de cliente.

Caso 1: Dissertação, 31%

Trabalho de mestrado em Direito, cento e oitenta páginas, com bibliografia extensa. Do total apontado, a maior parte corresponde a referências bibliográficas, transcrição de artigos de lei e citações diretas longas devidamente recuadas e atribuídas.

Situação: regular. O índice alto é consequência da natureza da área e do volume de citação. Não houve nenhuma providência necessária além de dois ajustes de formatação em citações que estavam no corpo do parágrafo em vez de recuadas.

Caso 2: Artigo, 9%

Artigo de doze páginas para submissão em periódico. O percentual é baixo, mas concentrado: quase todo ele vem de um único parágrafo da seção de fundamentação, reproduzido de outro artigo sem aspas e sem indicação de fonte.

Situação: exige correção imediata. Nove por cento parece tranquilizador e não é. Um parágrafo apropriado sem crédito é problema de integridade, independentemente do peso que ele tem no cálculo.

Caso 3: TCC, 18%

Trabalho de conclusão em Enfermagem. O relatório aponta coincidências espalhadas em descrições de protocolos clínicos, nomes de escalas de avaliação e a seção de metodologia, que segue procedimento padronizado.

Situação: majoritariamente regular, com uma ressalva. Terminologia técnica e nome de instrumento não admitem paráfrase. Mas duas passagens da fundamentação eram paráfrases de um mesmo autor sem citação: corrigidas com a atribuição adequada.

Caso 4: Tese, 4%

Tese de doutorado com índice muito baixo. A leitura do relatório, no entanto, revela que a seção teórica reproduz a estrutura argumentativa completa de um capítulo de livro não indexado pela base, com as frases reescritas.

Situação: a ferramenta não tinha como detectar. Apropriação de estrutura e sequência de raciocínio não se resolve com sinônimo, e é justamente o que um leitor especializado identifica. O caminho foi creditar a obra como fonte da organização adotada.

O que os quatro mostram juntos. O caso com maior percentual estava regular. O caso com menor percentual tinha o problema mais sério. Se a leitura tivesse parado no número, as duas conclusões seriam invertidas, e é exatamente isso que acontece quando alguém compara índices sem abrir o relatório.

Por que não existe percentual seguro

Essa é a pergunta mais frequente e a que tem a resposta menos satisfatória: não existe número universal.

Instituições diferentes adotam critérios diferentes. Algumas trabalham com limite fixo, outras não estabelecem nenhum e avaliam a natureza das ocorrências. Programas de pós-graduação da mesma universidade podem ter orientações distintas. E dentro de um mesmo programa, o entendimento pode variar conforme o orientador.

Além disso, o percentual depende de fatores que nada têm a ver com a qualidade do trabalho:

  • A área do conhecimento. Trabalhos jurídicos citam dispositivos legais extensamente. Trabalhos de saúde reproduzem nomes de protocolos e escalas. Ambos tendem a índices mais altos por natureza.
  • O tamanho do documento. Em um texto curto, um único parágrafo coincidente pesa muito mais no percentual do que em uma tese de duzentas páginas.
  • A quantidade de citações diretas. Metodologia que exige transcrição de entrevistas ou análise de documentos eleva o índice legitimamente.
  • A configuração do relatório. Como já mencionado, filtros ativos ou não mudam o número final.

Por isso a pergunta útil não é "quanto deu", e sim "do que é feito". Um trabalho com 30% composto integralmente de referências e citações atribuídas está em situação melhor que um com 8% concentrado em um parágrafo copiado sem crédito.

Um caminho que não resolve nada. Existe uma prática difundida de "baixar o índice" trocando palavras por sinônimos até a ferramenta parar de identificar a coincidência. Isso não corrige o problema: só o esconde. Se o trecho era de outro autor e continua sem atribuição, a apropriação permanece, agora com o texto pior. Bancas experientes reconhecem esse tipo de reescrita, e o que era falha de formatação vira suspeita de má-fé.

Como evitar o problema antes de escrever

Boa parte das ocorrências que exigem correção nasce de hábitos de leitura e de anotação, não de má-fé. Quatro práticas reduzem bastante o retrabalho.

Separe transcrição de comentário desde a primeira leitura

O erro mais comum começa no fichamento. Quem anota o trecho do autor e a própria observação no mesmo formato perde, semanas depois, a fronteira entre os dois. Na hora de escrever, aquilo que era transcrição entra no texto como se fosse redação própria.

A solução é mecânica: use aspas e a página em toda transcrição literal, mesmo em anotação informal. Se a anotação vai virar texto, ela já nasce com a atribuição junto.

Registre a página no momento da leitura

Voltar depois para localizar a página de uma citação custa mais tempo do que anotá-la na hora. E a ausência dela é o que transforma citação legítima em problema de formatação: sem o número da página, a citação direta fica incompleta pela norma.

Parafrasear não dispensa citar

Existe uma crença persistente de que reescrever com as próprias palavras torna a ideia sua. Não torna. Paráfrase muda a forma e mantém a autoria do conteúdo: por isso exige indicação da fonte, mesmo sem aspas.

Sem créditoA gestão documental precisa ser revista periodicamente, porque o acervo tende a se descolar da realidade da instituição com o tempo.
Com créditoComo observa Andrade (2019), a gestão documental precisa ser revista periodicamente, sob risco de o acervo se descolar da realidade da instituição.

A diferença entre as duas versões são quatro palavras. É o que separa uso legítimo de apropriação.

Autocitação também é citação

Reaproveitar trecho de artigo que você mesmo publicou é permitido na maioria dos contextos, mas exige indicação. Sem ela, configura-se o que se chama de autoplágio, e a ferramenta vai marcar, porque o seu artigo anterior está na base.

Como ler o seu relatório na prática

Se você tem um relatório em mãos e não sabe por onde começar, esta sequência costuma resolver:

1. Ignore o númeroComece pelas ocorrências individuais, não pelo total. O percentual é consequência, não diagnóstico.
2. Separe o esperadoMarque tudo que é referência, citação atribuída, dispositivo legal ou elemento padronizado. Esse grupo está resolvido.
3. Examine o que sobrouAs ocorrências restantes são as que merecem atenção. Verifique se cada uma tem fonte indicada e formato correto.
4. Confira a listaCruze cada citação do texto com a lista de referências, nos dois sentidos. É onde mais se encontra problema.

Se ao final desse processo você encontrar trecho copiado sem atribuição, a correção é uma só: creditar a fonte, com o formato adequado ao tipo de citação. Não há atalho, e o resultado é um trabalho mais sólido: citar bem demonstra domínio da literatura, não fraqueza.

Dúvidas frequentes

Existe um percentual aceitável?

Não existe número universal. Cada instituição define o próprio critério, e algumas não trabalham com limite fixo: avaliam a natureza das ocorrências. O regulamento do seu programa é a única referência válida, e vale consultá-lo antes de submeter.

Quando existe limite, ele costuma vir acompanhado da indicação de quais elementos são excluídos do cálculo, o que muda bastante o resultado.

Índice alto significa que meu trabalho será reprovado?

Não. O percentual é indicador para conferência, não veredito. Trabalhos com índice alto composto de referências e citações atribuídas são regulares, e isso é comum em áreas que citam legislação ou protocolos.

O que gera consequência é a apropriação sem crédito, encontrada na leitura das ocorrências, e ela pode existir com índice baixo.

Posso trocar palavras por sinônimos para reduzir o índice?

Tecnicamente, isso reduz o número. Mas não resolve nada: se o trecho era de outro autor e continua sem atribuição, a apropriação permanece: agora com o texto pior, porque a substituição forçada prejudica a redação.

Bancas experientes reconhecem esse tipo de reescrita, e o que era falha de formatação passa a parecer tentativa de ocultação.

Por que minhas referências aparecem como similaridade?

Porque referência em norma tem forma fixa. Se cem autores citam a mesma obra em ABNT, as cem referências são idênticas, e coincidem integralmente.

É ocorrência esperada e não caracteriza irregularidade. Muitas plataformas permitem excluir referências do cálculo; vale verificar se essa opção estava ativa no seu relatório.

Citei um autor que li em outro livro. Como indico isso?

Com a expressão apud, que indica citação de citação: o autor original, seguido de apud e da obra em que você efetivamente leu. Ambos entram na lista de referências.

Omitir o intermediário sugere leitura que não houve, e é um dos problemas mais frequentes em trabalhos com bibliografia extensa.

Meu índice está em 3%. Posso ficar tranquilo?

Não necessariamente. A comparação alcança apenas o que a base indexa. Livros impressos sem versão digital, materiais de acesso restrito e apostilas internas frequentemente não estão cobertos.

Índice baixo indica pouca coincidência com o que foi comparado, não originalidade comprovada. A conferência da própria bibliografia continua necessária.

Posso reaproveitar meu artigo anterior na dissertação?

Na maioria dos contextos, sim, desde que devidamente citado. Trata-se de autocitação, e a ausência dela configura autoplágio.

Vale confirmar no regulamento do programa: alguns têm regras específicas sobre reaproveitamento de produção própria, especialmente em teses compostas por artigos.

Vocês emitem o relatório de similaridade?

Não. O relatório oficial é gerado pela instituição ou pela plataforma que ela contrata, e é esse que tem validade no processo.

O serviço aqui é de leitura técnica: classificar as ocorrências, corrigir citações e referências, e explicar por escrito como o percentual se formou.

O que a análise técnica acrescenta

Ler um relatório de similaridade com atenção leva horas e exige familiaridade com as regras de citação. É um trabalho de conferência, não de escrita.

O serviço de análise de relatório de similaridade faz exatamente essa leitura: classifica cada ocorrência, corrige citações mal formatadas e referências incompletas, verifica a correspondência entre texto e lista, e entrega um parecer explicando como o percentual se formou.

Os limites são igualmente claros: não emitimos o relatório oficial, que é gerado pela instituição ou pela plataforma contratada; não reduzimos índice por substituição artificial de palavras; e não ocultamos plágio. Se a análise encontrar cópia sem atribuição, você vai saber, porque é melhor descobrir agora do que na banca.

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Conteúdo informativo, produzido a partir da prática de revisão documental e das normas técnicas de citação. Critérios de avaliação de similaridade e de integridade acadêmica variam entre instituições, e o regulamento do programa tem precedência sobre qualquer orientação geral. Este texto não substitui a orientação do professor orientador, da coordenação do curso, da comissão de ética em pesquisa ou da banca avaliadora, e não constitui parecer sobre a regularidade de nenhum trabalho específico.